Especial para o Repórter Goiás
Há momentos na vida de um repórter em que o trabalho se torna um privilégio. Em São Miguel do Passa Quatro, o tempo parece andar mais devagar quando entramos na Drogaria do Gonzaga. Ali, entre o aroma de um café forte, amargo e sem açúcar — preparado com a precisão de quem sabe que a vida não precisa de adoçantes para ser plena —, fomos recebidos pelo mestre Divino Carlos Mendonça. Mais do que uma entrevista, foi um reencontro com a história viva da nossa música raiz.
Um Homem de Muitos Caminhos e uma Só Paixão
A trajetória de Divino Carlos Mendonça é um roteiro de superação. Antes de se consagrar como um dos maiores compositores do país, ele viveu experiências que foram lapidadas nas entrelinhas da vida: é formado em Direito pela UNAERP (SP), foi bancário, corretor de imóveis e até jogador de futebol profissional, defendendo as cores do Botafogo de Ribeirão Preto (SP). Hoje, atua na Agrodefesa, onde mantém seu contato diário com o campo. Mas, independentemente da profissão, a música sempre foi seu norte.
Órfão ainda criança e criado por tios e avós, Divino aprendeu cedo a transformar a falta em poesia. Aos 13 anos, movido por uma paixão de infância, partiu para estudar em São Paulo. Levava na bagagem a nostalgia, que se tornaria sua maior professora de composição.
O Ritual da Criação: Da Boemia ao Sagrado
O processo criativo de Divino é uma lição de sensibilidade. No início, a inspiração vinha de improviso. Entre um trago e a fumaça de um cigarro, qualquer pedaço de papel servia para registrar os primeiros versos. Era o nascimento da ideia no meio da boemia urbana.
Mas a verdadeira “lapidação” acontecia no silêncio. Sob a luz de um fogão caipira na fazenda, ao som da natureza que desperta, Divino transformava rascunhos em pedras preciosas. Ali, as letras ganhavam o cheiro da terra, a força da semente e a verdade do homem que conhece o suor do rosto e a fé em uma força espiritual superior. A alegria de viver de Mendonça sempre veio pelas entrelinhas de suas músicas, que serviram de inspiração para muitas gerações.

300 Tons de Viola: O Som que Toca a Alma
Com mais de 300 músicas gravadas, Divino Carlos Mendonça construiu um patrimônio que atravessa o tempo. São mais de trezentos tons de viola que, nas vozes mais consagradas do país, foram o som do rádio para milhões de brasileiros. Embora para muitos o compositor seja uma figura anônima, sua obra é um sentimento que toca, literalmente, o coração e a alma de quem ouve.
Suas composições se tornaram imortais nas vozes de gigantes como Avaré & Jataí, Zé Venâncio e Tião Mineiro. Entre as obras que o mestre nomeia como as mais marcantes e que se tornaram sucessos absolutos, destacam-se:
”Sonhando com Passado”
”Vigilante do Araguaia”
”Vale dos beija-flores”
“A viola é a mulher”
”Estrela de Goiás”
Esta última, uma verdadeira moda raiz dedicada à cidade onde escolheu morar. No aconchego de sua propriedade rural, sua “fábrica de inspirações” continua ativa, pois as músicas raízes são a razão de sua vida bem vivida. Atualmente, o legado continua florescendo: jovens talentos, como os sobrinhos do cantor Daniel, em Brotas (SP), estão musicando novas canções de Mendonça, garantindo que o sentimento raiz continue alcançando novos corações.
Onde a História Acontece
Falar de Divino Mendonça é também celebrar a Drogaria Gonzaga. Sob a batuta do anfitrião Gonzaga Jayme, o local transcende o comércio e se firma como um santuário cultural em São Miguel do Passa Quatro. É o ponto onde a história de Goiás respira, unindo o passado de grandes mestres ao presente de quem valoriza nossas raízes.

Nota da Redação:
Esta entrevista histórica aconteceu na Drogaria Gonzaga, com o café preparado pelo próprio Gonzaga Jayme. O local é um ponto de encontro tradicional onde se reúnem bons amigos, cenário das histórias política e cultural da cidade. Para alguns, o local das “fofocas” mais saudáveis do Brasil — logicamente, quem diz isso também está fazendo uma brincadeira saudável. Por aquele balcão já passaram figuras de enorme bagagem sociocultural, como Eurico Barbosa, Jônatas Silva, o deputado Cairo Salim, o prefeito Gilmar Pereira, o artista Anísio Serrazul e tantos outros personagens que ajudaram a escrever a história de nossa região e do estado de Goiás.
Redação do Repórter Goiás – reportergoias.com – Por Luiz Carlos Peres


