
Para profissional com vivência no setor público, via cujo alagamento preocupa população todo ano, precisa ser redesenhada com soluções a pensadas para o futuro
Inaugurada no início dos anos 1990, a Marginal Botafogo em Goiânia deixou de ser uma solução viária eficaz e passou a ser encarada como um problema estrutural crônico há mais de 10 anos. Embora tenha desafogado o trânsito inicialmente, os problemas de alagamento, erosão e interdições na via tornaram-se recorrentes, com alertas intensos registrados desde, pelo menos, dezembro de 2013.
A via tem sido marcada por intervenções paliativas e emergenciais, mas não passa por uma reestruturação ampla, definitiva e pensada no futuro, que resolva as causas estruturais de alagamentos e desmoronamentos desde 2018, segundo levantamento do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás (CAU-GO).
Naquele ano, foi a data de conclusão de sua última grande obra de recuperação, na época anunciada para resolver 17 pontos críticos, mas se mostrou insuficiente. A prefeitura chegou a anunciar em dezembro do ano passado a instalação de “piscinões” para conter as águas que desaguam na Marginal, com custos estimados em R$ 120 milhões, tentando finalmente oferecer uma solução de longo prazo, mas as obras ainda não começaram.
De acordo com o engenheiro Idalino Hortêncio, que tem mais de 40 anos de serviços prestados no setor público, os desafios que a Marginal Botafogo representa para as políticas de desenvolvimento urbano de Goiânia são o típico resultado da falta de planejamento ao longo da história da Capital. “A via foi construída depois de ter ocorrido a ocupação urbana, e ocorreu em uma área de várzea, sujeita a alagamentos e cheias”, analisa.
O engenheiro acrescenta que esse fenômeno foi agravado pela configuração do clima na Capital. “Temos um verão marcado por pancadas de chuva intensas. Para os rios, isso representa vazão intensa e repentina. O curso d’água aumenta seu volume muito rápido”, comenta. Nesse contexto, a localização específica do Córrego Botafogo representa um fator a mais de fragilidade. “A região é um funil, que recebe águas captadas por duas bacias de médio porte, localizadas de ambos os lados das margens do curso d’água”, analisa.
Essas são as causas naturais. Entretanto, para Idalino, os fatores humanos agravaram as dificuldades que os elementos naturais já representam por eles mesmos. Segundo o engenheiro, se a canalização foi adequada para o momento em que a Marginal Botafogo foi construída, ao longo dos anos seu contorno tornou-se inviável. “Nos tempos atuais, temos uma cidade totalmente impermeabilizada pelo excesso de asfalto e concreto”, frisa.
O engenheiro salienta que o estágio atual de impermeabilização de Goiânia não se deve apenas à ação do Poder Público. “As habitações deveriam ter cerca de um terço de suas áreas formado por superfície permeável. Porém não é isso que se faz. Nos dias de hoje, opta-se por construir em toda a área do lote. As áreas permeáveis ficam longe de ocupar o limite mínimo”, pontua. “Qual é o resultado a partir dessa prática? A água só tem um destino para percorrer: a rua”, pondera.
No caso da região da Marginal Botafogo, essa água que sai de casa para a rua se dirige ao canal. “Dessa forma, toda a água da região escorre para lá. Isso somado a um sistema de drenagem antigo, concebido para uma época em que as áreas eram mais permeáveis, torna o sistema de drenagem totalmente capaz de atuar com eficácia”, observa.
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Soluções vão do ideal com custo alto ao barato, com limitações
Para o engenheiro Idalino Hortêncio, que acaba de se candidatar à Presidência do Conselho Regional de Engenharia de Goiás (CREA-GO), a solução mais eficaz e definitiva para o problema da drenagem na Marginal Botafogo é a canalização a nível profundo, por meio da renaturalização das margens. “O ideal seria reintroduzir a vegetação de várzea. A água subiria no momento da cheia, mas retornaria ao nível normal quando a pancada de água cessasse. Resolveria o problema de forma definitiva”, explica o engenheiro.
Apesar de ser mais eficaz e definitiva, a renaturalização das margens do Córrego Botafogo está longe de ser a opção mais eficiente. “Os custos seriam altos demais para o Poder Público, principalmente por conta das desapropriações necessárias”, avalia Idalino. Isso porque seria necessário refazer o vale para o curso d’água fluir naturalmente. “Só para se ter uma ideia, se a gente considerar o trecho entre o Setor Sul e o Setor Universitário, a largura do vale teria de ir da Rua 91 até mais ou menos a Rua 233”, estima.
Uma outra solução seria mais limitada, sem garantia de ser definitiva, mas teria a vantagem de ser possível pelo menos no médio prazo. “É possível fazer uma nova estabilização estrutural do que já existe, com novos muros de contenção e reforço geotécnico, ou até mesmo elevar a pista, pelo menos nos pontos críticos”, conjectura o engenheiro.
Idalino destaca que a situação do sistema de drenagem da Marginal Botafogo gera um debate de longa data no campo da engenharia. “Nós sempre esbarramos em duas limitações muito grandes: a vontade do Poder Público em resolver o problema e o nível de preparo da população, que deveria ter mais cuidado, por exemplo, com a destinação do lixo”, salienta. Para o profissional, a resolução definitiva para os problemas da via requer essas duas frentes, tanto amplas quanto difíceis.


